Pensatempo: Março 2012

sexta-feira, 30 de março de 2012

Livro Latifúndio Midiota será lançado neste domingo no Tribunal da Terra do Mato Grosso do Sul


Na UFMS, em Campo Grande, evento debate demarcação das terras indígenas e quilombolas, violência no campo e reforma agrária
 
Latifúndio Midiota: crime$, crise$ e trapaça$, livro do assessor da CUT Nacional, Leonardo Severo, será lançado na manhã do próximo domingo (1º de abril), em Campo Grande, durante o encerramento do Tribunal da Terra do Mato Grosso do Sul. Além de realizar um julgamento do papel cumprido pelo Estado na questão da terra, integram a programação oficinas sobre diversos temas, apresentações culturais e debates.

O presidente da CUT-MS, Jeferson Borges Silveira, destacou a relevância do livro para defender a verdadeira liberdade de expressão, “fazendo um contraponto à criminalização dos movimentos sociais feita pela mídia, que vende à sociedade uma imagem de que sindicalistas e militantes são todos bandidos e ignorantes, enquanto esconde a podridão das elites, os erros e mazelas do Estado”.

RELEVÃNCIA DO LIVRO

“O lançamento de um livro que defende abertamente a democratização da comunicação num estado como o nosso tem um significado especial, pois ao mesmo tempo em que denuncia a violência criminosa do latifúndio, expõe a violência silenciosa da mídia”, acrescentou o secretário geral da CUT-MS, Alexandre Costa Júnior. Na avaliação do dirigente cutista, “a relação mídia-latifúndio é mais do que íntima, é uma operação casada contra os trabalhadores rurais e indígenas”.

O evento inicia nesta sexta-feira com uma mesa redonda que abordará os seguintes assuntos: Estrutura fundiária e a questão agrária em MS (Miescelau Kudlavicz, agente da Comissão Pastoral da Terra -CPT/MS); O golpe de 64 e seus impactos históricos e atuais na questão fundiária, com Narciso Pires, presidente da ONG Tortura Nunca Mais/PR-Sociedade HPAZ/PR; Como o coletivo se transforma em privado: o histórico papel do Estado na privatização das terras indígenas sul-mato-grossenses, com Katya Vietta, doutora em Antropologia Social/Etnologia Indígena.
Na sexta à tarde acontecem Oficinas que aprofundarão temas específicos como o Movimento Negro e as questões dos territórios quilombolas, agrotóxicos, reforma agrária e a luta pela restituição territorial dos povos indígenas.

Assista
Debate no Sindicato dos Bancários de São Paulo no dia 27 de março

Cobertura do lançamento do livro pela TV CUT - 7 de fevereiro - Livraria Martins Fontes da avenida Paulista


Cobertura do lançamento do livro pela TVT no Fórum Social Temático de Porto Alegre - 27 de janeiro

domingo, 18 de março de 2012

Prefeitura sem prefeito

Diante do abandono a que o Estado e a capital paulista estão sendo submetidos pelos desgovernos demo-tucanos, serristas, alckmistas, kassabianos, vamos ouvir o poeta, que denunciava o por debaixo dos panos... Ouçamos profundo o falar alto de Patativa do Assaré diante de uma Prefeitura sem prefeito.


Prefeitura sem prefeito


Nessa vida atroz e dura
Tudo pode acontecer
Muito breve há de se ver
Prefeito sem prefeitura;
Vejo que alguém me censura
E não fica satisfeito
Porém, eu ando sem jeito,
Sem esperança e sem fé,
Por ver no meu Assaré
Prefeitura sem prefeito.

Por não ter literatura,
Nunca pude discernir
Se poderá existir
Prefeito sem prefeitura.
Porém, mesmo sem leitura,
Sem nenhum curso ter feito,
Eu conheço do direito
E sem lição de ninguém
Descobri onde é que tem
Prefeitura sem prefeito.

Ainda que alguém me diga
Que viu um mudo falando
Um elefante dançando
No lombo de uma formiga,
Não me causará intriga,
Escutarei com respeito,
Não mentiu este sujeito.
Muito mais barbaridade
É haver numa cidade
Prefeitura sem prefeito.

Não vou teimar com quem diz
Que viu ferro dar azeite,
Um avestruz dando leite
E pedra criar raiz,
Ema apanhar de perdiz
Um rio fora do leito,
Um aleijão sem defeito
E um morto declarar guerra,
Porque vejo em minha terra
Prefeitura sem prefeito.

quinta-feira, 8 de março de 2012

PIB de 2,7% nada teve a ver com a crise dos países imperialistas


Aumento dos juros, restrição ao crédito, corte nos investimentos, subsídio cambial às importações, arrocho salarial e bilhões do Orçamento desviados para pagar juros aos bancos frearam o crescimento


Artigo de Carlos Lopes, no jornal Hora do Povo


O desastroso crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2011, divulgado pelo IBGE na terça-feira, infelizmente, não é uma surpresa. Da mesma forma, o resultado negativo, em todas as comparações, da produção física industrial, publicado no dia seguinte (v. matéria nesta página).
Nossos leitores sabem que a partir de  janeiro do ano passado nós afirmamos, e demonstramos, diante de sucessivos retrocessos, que a política recessiva, de aumento dos juros, restrição ao crédito, corte nos investimentos e gastos públicos, subsídio cambial às importações, escancaramento ao parasitário dinheiro externo, arrocho sobre o salário mínimo e sobre o salário dos funcionários (e uma insidiosa campanha contra os aumentos salariais em geral), somente poderia conduzir ao que, agora, está exposto publicamente pelos números das “Contas Nacionais” do IBGE.

Depois da eclosão da crise nos países imperialistas, ao final de 2008, o Brasil, no governo do presidente Lula, ajustou a sua economia para que a crise não voltasse a afetá-lo. O mesmo fizeram a maior parte dos países do mundo. No entanto, a política econômica do sr. Mantega foi acabar com esse ajuste – nas suas palavras, a crise havia acabado, daí eram dispensáveis os estímulos, estabelecidos por Lula, à atividade econômica, isto é, os investimentos e financiamentos públicos, os gastos com custeio, o crédito farto para o consumidor e para as empresas, etc. Na terça-feira, ao falar que 2011 foi “um ano de ajuste”, o que Mantega expôs, exatamente, foi que seu “ajuste” era acabar com o ajuste de Lula. Mas não admitiu isso honestamente.

Não fomos os únicos que advertiram que isso não ia dar certo, até porque apenas tiramos as decorrências lógicas do que estava, e ainda está, acontecendo. Preferiríamos, certamente, que esse descaminho tivesse sido corrigido. Porém, o crescimento econômico não é um fenômeno da natureza, mas um resultado da ação humana – em uma palavra, de uma política. Como seria possível crescer decentemente com uma política de freio ao crescimento?
Assim, os míseros 2,7% de crescimento do PIB - quando, em 2010, crescemos 7,5% - são o espelho da política dos srs. Mantega e Tombini, de frear o crescimento em prol de alguns bancos, sobretudo estrangeiros, em detrimento do conjunto dos brasileiros.

Com essa política, em 2011, o setor público transferiu aos bancos, em juros, o equivalente a 5,72% do PIB (R$ 236,673 bilhões). Com juros imensamente maiores que os de outros países – e aumentados cinco vezes seguidas - montanhas de dólares oriundos das superemissões dos EUA e demais países centrais invadiram o país, e o câmbio se tornou, mais do que nunca, um dumping a favor das mercadorias importadas; a hipervalorização do real e desvalorização do dólar foi tão descomunal, barateando importações e encarecendo a produção interna, que o câmbio médio de 2011 foi apenas R$ 1,67 por dólar.

Ao mesmo tempo, os financiamentos do BNDES caíram 18% (no caso das indústrias, -19%).

A consequência é que, além da mediocridade do crescimento, atingido pelos juros e pelos importados subsidiados pelo câmbio, a taxa de investimento da economia, já muito baixa, caiu: 19,3% do PIB contra 19,5% em 2010. O sr. Mantega disse que “temos aumentado o investimento” - está se vendo.

Já o sr. Tombini, preferiu um truque: falar que “a Formação Bruta de Capital Fixo, uma boa medida do investimento, também seguiu em expansão”.

A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) - o gasto com máquinas, equipamentos e edificações para a produção – só tem significado quando comparada ao PIB para formar a taxa de investimento (FBCF/PIB). Senão, qualquer parafuso ou arruela, comprados para simples reposição, seria uma formidável “expansão” do investimento, já que é uma expansão da FBCF.

Tombini sabe disso – e sabe que a taxa de investimento caiu. No entanto, prefere enganar as pessoas que não sabem o que é FBCF e taxa de investimento.

Mas nada pode eludir que o êxtase com “superávits primários” cavalares (um, cada vez maior, desvio de verba da Saúde, Educação, etc., para os bancos), levou a um rotundo fracasso. Como escreveu recentemente o governador Tarso Genro, do Rio Grande do Sul, “a extorsão permanente do nosso trabalho e do desenvolvimento industrial e comercial do país, continua sendo processada pela drenagem de riquezas através dos juros e serviços da dívida (…). A 'confiança' dos investidores no Brasil - refiro-me aos investidores da especulação financeira - é a confiança do 'senhor' sobre o 'escravo' ”.

Entre os “BRICS”, nenhum crescimento foi tão baixo quanto o do Brasil: China: +9,2%; Índia: +7,4%; e Rússia:+4,1%.

Na América do Sul, o crescimento foi em torno de 6,5%. P. ex.: Peru (+6,9%); Argentina (+9,2%); Bolívia (+5%); Chile (+6,5%); Colômbia (+7,7%); Equador (+5,8%); Paraguai (+6,4%); Uruguai (+6%) - [dados das instituições oficiais de cada país].  Mesmo considerando toda a América Latina e Caribe, onde há países  devastados pelos EUA, o crescimento médio foi 4,6% (FMI, idem).

Enquanto isso, o maior país, e maior economia, cresceu apenas 2,7%.

A nossa presidente, no último dia 6, atribuiu o resultado de 2011 ao “período adverso para a economia internacional, uma vez que não só os países desenvolvidos estão sofrendo pressões nas suas taxas de crescimento, mas também os países emergentes”.

Não podemos concordar – e não podemos porque a nossa presidente está equivocada. As taxas de crescimento dos países “emergentes” não “sofreram” com tais “pressões”, exceto os pouquíssimos que aceitaram se submeter a esse sofrimento. Por que o Brasil seria diferente dos outros países “emergentes”? Sobre esse tema, um documento que recentemente publicamos, a Resolução Política da última reunião do Diretório Nacional do Partido Pátria Livre (PPL), traz uma importante contribuição:

... não custa nada lançar um olhar sobre o estado atual do mundo e ver que não há razão objetiva para o Brasil ter empacado. Não vamos falar de China e Índia (nossos parceiros no BRICS) que, não tendo tomado conhecimento da crise em 2008, 2009 e 2010, cresceram em 2011 a uma taxa de 9,2% a primeira e 7,4% a segunda. Vamos só apresentar uma singela relação de países de vários continentes com as respectivas taxas de crescimento no ano de 2011 (…). O equívoco de se atribuir um caráter necessariamente mundial à crise que corrói os centros imperialistas pode ser visto mais claramente quando se compara o crescimento de alguns países emergentes com os das maiores economias do '1º Mundo' ” (cf. www.horadopovo.com.br/2012/02Fev/3034-29-02-2012/P8/pag8a.htm).

Com efeito, os 38 países “emergentes” e os 112 países “em desenvolvimento” - portanto, 150 países ao todo – cresceram, em 2011, a uma média de 6,2% (cf. FMI, “World Economic Outlook Update”, Washington, jan/2012, pág. 2).

Mas o Brasil, um dos principais “emergentes”, cresceu 3,5 pontos percentuais abaixo da média.

Mesmo os países da África subsaariana tiveram, quase todos, um crescimento muito superior ao Brasil (cf. FMI, idem). Alguns exemplos, com suas taxas de crescimento em 2011:

Congo (+6,5%), República Centro Africana (+4,1%), Ruanda (+7%), Burundi (+4,2%), Quênia (+5,3%), Tanzânia (+6,1%), Uganda (6,4%), Djbouti (+4,8%), Eritréia (+8,2%), Etiópia (+7,5%), Benin (+3,8%), Burkina Faso (+4,9%), Camarões (+3,8%), Guiné Equatorial (+7,1%), Gabão (+5,6%), Gâmbia (+5,5%), Gana (+13,5%), Guiné (+4%), Guiné Bissau (+4,8%), Libéria (+6,9%), Mauritânia (+5,1%), Mali (+5,3%), Níger (+5,5%), Nigéria (+6,9%), Senegal (+4%), Serra Leoa (+5,1%), Zâmbia (+6,7%).

Se a crise dos países imperialistas não os afetou, por que afetaria o Brasil?

Porque não foi a crise dos países imperialistas que causou a débàcle econômica dos 2,7%, mas a política econômica levada a cabo a partir de janeiro de 2011.

É notável que conseguimos ficar atrás até do México (+4,1%), economia hoje altamente dependente dos EUA em crise.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O latifúndio midiota e o estupro coletivo na Paraíba e na Grécia


Entre estupefato e estarrecido recebi a notícia de que sete homens e três adolescentes haviam realizado um estupro coletivo durante festa na cidade de Queimadas, no interior da Paraíba. Em meio ao escárnio, duas mulheres foram mortas e seis foram violentadas. As jovens assassinadas teriam reconhecido os rostos dos seus algozes por trás das máscaras com que covardemente procuraram se camuflar. A polícia indiciou os envolvidos por estupro seguido de morte, formação de quadrilha e porte ilegal de armas. O processo recebeu um carimbo, que pode significar até 132 anos de prisão para o acusado de ser o “mentor intelectual” do crime. Nenhuma palavra sobre as milhares de horas de refinados assassinatos, sadismo e imbecilizações que, made in USA, formatam padrões de comportamento antissocial e estimulam deformações e perversões.

Em meio a saudações ao austericídio fiscal – austeridade que provoca genocídio -, ao corte orçamentário e outras medidas arrasadoras de salários e empregos, o latifúndio midiota, sempre zeloso em salvaguardar os interesses dos seus amos, se esforça para culpabilizar os gregos, tentando transformar a vítima em ré.

O que houve com a Grécia, como tão bem descreve o renomado maestro e destacado intelectual grego Mikis Teodorakis, é de responsabilidade da “corrupção de uma parte do mundo político, financeiro e da mídia”, “e de alguns países estrangeiros como Alemanha, França, Inglaterra e Estados Unidos, que ganharam bilhões de euros à custa da nossa riqueza nacional com a venda, a cada ano, de equipamento militar. Esta constante hemorragia nos impediu de avançar, enquanto enriquecia outros países”.
Membro da Resistência à ocupação nazista, preso e torturado pela Gestapo, compositor das trilhas musicais de vários filmes, como o magistral “Z” - dirigido por Costa-Gravas e que trata precisamente da instalação de mísseis dos EUA na Grécia no início dos anos 60 -, Teodorakis sabe onde pisa e adverte que “estas duas grandes feridas poderiam ter sido evitadas se os líderes de ambos os partidos políticos pró-ianques não se tivessem deixado corromper”. A riqueza nacional, ressalta, “produto do trabalho do povo grego, foi drenada para o exterior e os políticos tentaram compensar as perdas através de empréstimos excessivos que levaram a uma dívida de 300 bilhões de euros, 130% do PIB”.

Com um esquema assim, esclareceu, “os estrangeiros ganharam duas vezes: primeiro com a venda de armas e de seus produtos e, segundo, com juros sobre o capital emprestado ao governo, e não ao povo grego que, como vimos, foi a principal vítima em ambos os casos”. Um único exemplo será suficiente para provar isso, sublinha, apontando para o ano de 1986, quando “o governo de Andreas Papandreou pediu emprestado um bilhão de dólares a um banco de um grande país europeu. Os juros sobre esse empréstimo terminaram de ser pagos em 2010 e ascenderam a 54 bilhões de euros!”. Um crime à altura dos massacres promovidos pelos nazistas que destruíram o país com os bombardeios, o roubo de todo o ouro dos bancos gregos e o confisco de toda a produção agrícola. Assim, no início da ocupação nazi em 1941, em apenas seis meses foram registrados quase 300 mil mortos pela fome generalizada.

O fato, esclarece Teodorakis, é que na atualidade, “um punhado de bancos internacionais, agências de informação, fundos de investimento, numa concentração mundial de capital financeiro sem precedentes históricos, reivindica o poder na Europa e em todo o mundo e prepara a abolição de nossos estados e nossa democracia, com a arma da dívida, para escravizar a população europeia, colocando no lugar das imperfeitas democracias que temos a ditadura do dinheiro e a banca, o poder do império totalitário da globalização, cujo centro político está fora da Europa continental apesar da presença de poderosos bancos europeus no coração do império”.
Diante deste contexto internacional e dos dilemas da conjuntura nacional, precisamos responder assepticamente – e bem rápido - à tentativa do imperialismo e dos países capitalistas centrais de transformarem nossas nações em metástase do seu câncer. Para quem acha o termo forte demais é só olhar o que estão fazendo com a Grécia, onde multidões de seres humanos perambulam pelas ruas removendo os lixos à procura de comida, e milhares de crianças abandonadas em casas abrigo choram pela perda de seus pais, postos a perder por dívidas impagáveis.

No Brasil, o fortalecimento do protagonismo do Estado com a ampliação dos investimentos nas áreas sociais é cada vez mais essencial para confrontar o receituário da perdição e defendermos o nosso mercado interno, valorizar o trabalho, distribuir renda, garantir e ampliar direitos. Assim como na Grécia a armadilha neoliberal das privatizações, do arrocho e da precarização coloca a sua máscara de “ajuda humanitária” na vã tentativa de tornar palatável o horror, real, de uma cara medonha e desumanizada pelos cifrões, o termo “responsabilidade fiscal” esconde uma pergunta simples: Para quem? O escandaloso superávit primário enriquece a quem? O corte de R$ 55 bilhões no Orçamento da saúde, da educação e de outras áreas igualmente sem importância serve para fazer caixa para quem?
Os amantes da liberdade, da paz e da justiça tem hoje um inimigo central: o imperialismo e sua política de terrorismo de Estado, que se expressa militarmente contra o Iraque, o Afeganistão e a Líbia, que no momento espreita a Síria, e que, economicamente, ameaça a todos nós com a armadilha da dívida, dos juros e do câmbio, entre outras eficientes armas do sistema financeiro.

Há quem procure fugir do enfrentamento destes e de outros problemas advogando pelo “tecnicismo” e sua ode à desideologização. Infelizmente esta é uma perda de tempo, uma tentativa vã de mascarar a impotência diante dos sucessivos atropelos que vêm sendo praticados contra a soberania dos países e a auto-determinação dos povos. Para falar de carimbos, vale lembrar que era estadunidense, mais precisamente da IBM, a tecnologia usada pelos nazistas nos campos de concentração e de trabalho forçado na Alemanha. Terminada a Segunda Guerra, durante o julgamento no Tribunal de Nuremberg, oficiais nazistas alegaram que estavam “apenas cumprindo ordens”. Disseram que nada mais fizeram além de respeitar a regra que era seguir cegamente a hierarquia. O carimbo gravado na pele ficou grifado na memória. Neste caso, algo seletiva, sobre os crimes perpetrados por algumas transnacionais.

Encerro com a transcrição de um relato publicado no livro Bumerangue, de Michael Lewis. O autor nada tem de esquerda nem de progressista, bem longe disso, mas descrevendo uma das visitas que realizou na Alemanha, aponta com precisão o nível de degeneração e depravação alcançado pelos que advogam políticas de extermínio de países e povos. Esclarece em poucas linhas o caráter dos beneficiados com o austericídio, tão vergonhoso quanto tragicamente atual.  “Casualmente, acabara de vir à tona uma história de que uma empresa de resseguros alemã chamada Munich Re, em junho de 2007, um pouco antes do colapso [das bolsas de Wall Street], havia patrocinado uma festa para seus melhores corretores que oferecia não apenas jantares e competições de golfe, mas uma bacanal com prostitutas em uma terma. Nas finanças, de alta ou baixa complexidade, esse tipo de coisa não é incomum. O impressionante foi a organização do evento. A empresa colocou fitas brancas, amarelas e vermelhas nas prostitutas para indicar quais estavam disponíveis a quais homens. Após cada encontro sexual, a prostituta recebia um carimbo no braço para indicar com que frequência havia sido usada. Os alemães não queriam apenas putas: queriam putas com regras”.