Pensatempo: Julho 2013

terça-feira, 30 de julho de 2013

Porto Quetzal: assassinato sob encomenda para privatização




Em meio à violenta e sangrenta repressão antissindical, governo de Otto Pérez Molina entrega ao capital estrangeiro o futuro do principal porto da Guatemala

Leonardo Wexell Severo – ComunicaSul
Fotos: Joka Madruga - ComunicaSul


Em Puerto Quetzal, no litoral Pacífico, tivemos contato com a luta – árdua e sangrenta - do movimento sindical da Guatemala contra o governo do presidente Otto Pérez Molina, reconhecido como “major Tito Árias”, ex-parceiro de armas do genocida Ríos Montt nos anos 80.
Localizada a 98 quilômetros da capital, a principal estrutura portuária guatemalteca envolve cerca de cinco mil trabalhadores e movimenta mais de metade das mercadorias que entram e saem do país maia. Devido à sua infraestrutura, localização e proximidade, tem papel relevante para a região, principalmente em relação às cargas em direção a Belize, El Salvador, Honduras e Nicarágua. A relevância  estratégica do porto é facilmente explicada: os outros dois ficam no Atlântico, o de Cobigua, pertencente à multinacional bananeira estadunidense Chiquita Brands, e o de Santo Tomás de Castilla, estatal, mas que é somente pesqueiro.
O movimento comercial crescente na última década, entre 6% e 10% ao ano, tem movido as multinacionais a realizarem influentes e bem remuneradas “gestões” junto às autoridades pela privatização do Porto de Quetzal. Para potencializar os lucros, as empresas acionaram os aprendizes de Luciano Coutinho. O objetivo é que a desnacionalização seja feita com o maior aproveitamento de recursos públicos possível, travestindo o neoliberalismo da privatização em “usufruto” ou “concessão”. Retirados da cartilha do FMI, os apelos em prol da “modernização” e da “eficiência” de um “porto lento” em que “as filas prejudicam o país” são repetidos à exaustão, utilizando-se da mídia para identificar a defesa do patrimônio público nacional como “corporativismo” e a alienação da soberania como “progresso e desenvolvimento”.
Santiago, Lázaro e Francisco: lideranças portuárias denunciam as arbitrariedades
Com a bússola virada para o Norte, seja Estados Unidos ou Europa, o governo tem respondido aos sucessivos protestos da população com bastante agilidade. A criminalização dos movimentos sociais mobiliza tropas do exército para proteger os interesses do capital estrangeiro nas bananeiras e mineradoras. O mesmo acontece agora na enorme parte do porto que acaba de ser repassada em “usufruto” por 25 anos. Para prorrogar este prazo por outro período igual, a empresa necessitará tão somente enviar uma “solicitação” com três meses de antecedência.

SABOTANDO A CONCORRÊNCIA

Tamanha identidade com a nação (dos outros) fez com o governo disponibilizasse 348.341 metros quadrados de porto, com sua saída ao mar, à Empresa Terminal de Contêineres Quetzal (TCQ), companhia inscrita na Guatemala, mas cuja matriz – driblando a lei local - está na Espanha. Vale lembrar que tal “consórcio”, liderado pela subsidiária da Terminal de Contêineres de Barcelona (TCB), foi constituído em abril deste ano com ridículos cinco mil quetzales – o equivalente a US$ 680,00. Atualmente o porto gera anualmente ao Estado cerca de 100 milhões de quetzales, o que representa 20% dos ingressos brutos do Estado, aponta a Superintendência de Administração Tributária (SAT).
A fim de colocar uma pá de cal na concorrência, o lado privado sai na frente para converter-se em porto “hub”, ao qual chegam navios de longo percurso que descarregam suas mercadorias para serem redistribuídas em trajetos mais curtos. Com 15 metros de calado contra 11,5 metros do porto público, o privado ganhará em profundidade os metros que faltarão ao “concorrente”, com a anuência e sabotagem da atual administração para receber as maiores e mais lucrativas embarcações, denunciam os sindicatos.
Para que tamanho atropelo fosse consumado, muito sangue correu, gente morreu, foi perseguida e demitida. O assassinato de Júlio Peña, dirigente dos trabalhadores da estiva, em janeiro deste ano, e a onda de demissões de lideranças que se seguiu aos tiros que o abateram são expressões do fascismo ainda vigente. Da mesma forma que as ameaças aos que persistiram em estruturar uma entidade sindical de representação desta mão de obra nas empresas privadas integram a extensa jornada de resistência.

Foto divulgada pelos companheiros guatemaltecos
100 BALAS PARA PEDRO ZAMORA

No dia 15 de janeiro de 2007, após inúmeras ameaças de morte, Pedro Zamora, então secretário geral do Sindicato de Trabalhadores da Empresa Portuária Quetzal (Stepq), teve seu carro alvejado por mais de cem disparos quando retornava para casa com os dois filhos. “Ele se jogou sobre as crianças para protegê-las, recebendo 17 balaços. O filho menor, de apenas três anos, foi baleado mas sobreviveu. Para ter certeza da conclusão do ‘serviço’, um dos matadores se aproximou do veículo e disparou no rosto de Pedro”, conta Arturo Granados, do Sindicato Unido dos Trabalhadores (Sutraporquet).
Na avaliação de Granados o alvo era claro: silenciar uma voz de combate à privatização do porto, que ecoava denunciando as demissões arbitrárias, “mobilizava contra os atropelos na negociação do Pacto Coletivo de Trabalho e toda e qualquer violação aos direitos dos trabalhadores”.
A atrocidade ganhou repercussão nacional e internacional, fazendo com que os entreguistas de turno recuassem do seu objetivo privatizante. No dia 12 de fevereiro daquele ano os nove trabalhadores do Stepq, demitidos ilegalmente pela empresa portuária, foram recontratados e reintegrados com os mesmos cargos e salários. De lá para cá, mais do que um símbolo de eficiência, Puerto Quetzal é sinônimo de resistência e unidade da classe trabalhadora não só da Guatemala, como de toda a América Central. A experiência reuniu as três entidades sindicais da empresa, que passaram a atuar conjuntamente, superando eventuais divergências.

GOVERNO MANCHADO DE SANGUE

Zamora foi assassinado com 17 balas
A unidade sindical também é um dos motores do Movimento Sindical e Popular Autônomo da Guatemala, que reúne a Confederação de Unidade Sindical (CUSG), a Central Geral de Trabalhadores (CGTG), a União Sindical de Trabalhadores (Unsitragua) e o Movimento de Trabalhadores Camponeses e Camponesas de San Marcos (MTC), que têm comandado as mobilizações contra o entreguismo do governo Pérez Molina.
“Não são só os sindicalistas as vítimas do uso e abuso da repressão, mas o conjunto dos movimentos sociais, os camponeses, os estudantes, todos os que se confrontam com o interesse da oligarquia que age em sintonia com o governo dos Estados Unidos”, alertou Júlio Coj, da direção da Unsitragua. A submissão aos “interesses econômicos e à geopolítica estadunidense” vem de longe, tendo se explicitado com a atuação ianque na deposição do governo nacionalista de Jacobo Árbenz, deposto por um golpe orquestrado pela CIA em 1954. Posteriormente, ganhou magnitude – e apoio israelense - na longa noite de terror entre 1960 e 1996, com pelo menos 250 mil mortos e desaparecidos, conforme levantamento da ONU.
Lázaro Reyes, atual secretário geral do Stepq, lembra que Pérez Molina tem sua trajetória e seu governo “manchados pela violência”. “Em Totonicapán em 4 de outubro do ano passado uma comunidade que protestava contra o aumento da energia elétrica teve oito manifestantes assassinados e dezenas de feridos pelo Exército”, recordou Lázaro, frisando que “não há conflito que esse governo resolva na mesa de negociação”. Pelo contrário, disse, “Molina nunca busca o diálogo, quer sempre resolver qualquer assunto mandando soldados. Ele tem o exército metido em sua cabeça”.
“No tempo de Ríos Montt, sentenciado por genocídio, o exército se posicionava para exterminar a oposição, para que as pessoas trabalhassem em estado de escravidão. Pérez Molina era militar na época e adotava métodos similares, sendo conhecido pelo seu pseudônimo de comandante Tito Arias”, recordou Lázaro Reyes. Diante dos recentes protestos contra a privatização, apontou o sindicalista, além da polícia, o governo enviou tropas especiais, forças da Guarda Naval e dos paraquedistas. “É um governo que para atacar a soberania e blindar o capital se utiliza da força, ignorando qualquer ordenamento jurídico”, acrescentou Mynor Siajes, secretário de Organização do Stepq.

TESTEMUNHA DA MATANÇA

Entre as inúmeras testemunhas de acusação que se pronunciaram no julgamento de Ríos Montt pela organização de pelo menos 16 matanças coletivas de 1.771 indígenas, ganha relevo o depoimento de Hugo Bernal. Mecânico do Corpo de Engenheiros do Exército em uma unidade do noroeste do departamento de Quiché, entre 1982 e 1983, Bernal assegurou que “sob ordens do major Tito Arias, hoje conhecido como Otto Pérez Molina, os soldados coordenavam a queima e o saque das pessoas". Servindo no quartel militar El Pino, no povoado de Nebaj – município que integra o Triângulo Ixil – ele relatou que “houve execuções na companhia militar”, sendo Molina um dos mandantes do massacre desta etnia. O ex-coladorador do Exército afirmou ter presenciado grande quantidade de indígenas serem levados por soldados. Quando retornavam, atestou, “vinham feridos, com a língua cortada, as unhas arrancadas e eram executados pelos militares". “As pessoas eram transferidas, mulheres e crianças. Quando as execuções aconteciam em El Pino, os oficiais encarregados eram que os matavam e sepultavam clandestinamente", informou.
De acordo com o dirigente do Sindicato de Trabalhadores Organizados da Portuária Quetzal, Francisco Javier Reyes Navarrete, frente a tantos e tão reiterados abusos, a aliança entre as três entidades sindicais que atuam no porto “é essencial para enfrentar o sistema neoliberal que atenta contra o interesse nacional”. Ele lembra que o processo de dilapidação do patrimônio público no local tem seu antecedente histórico nas concessões de operações de grua e na transferência dos trabalhos da estiva. Assim, embora trabalhem no local milhares de pessoas, apenas 745 são fixas, “ficando as demais em situação extremamente vulnerável, para não dizer precária”. “Não podemos tapar o sol com um dedo: concessão é privatização. Nós estamos defendendo o patrimônio que é de todos, o futuro dos nossos filhos e netos, o futuro do nosso país”, assinalou.
Francisco lembra que o governo tem respondido às inúmeras denúncias interpostas pelo movimento sindical sobre a agressão aos direitos humanos com ameaças, “nos chamando de terroristas e de narcotraficantes, fazendo de tudo para intimidar”. “Júlio Peña foi assassinado e vários dos companheiros do seu Sindicato foram demitidos e proibidos de ingressar no porto. Para que recebessem o que era devido tiveram que desistir das denúncias que apresentaram no Ministério do Trabalho. A impunidade é o que alimenta o crime na Guatemala. Infelizmente, há muito tempo”, frisou.




quarta-feira, 17 de julho de 2013

Samuel Pinheiro Guimarães: “Democratização da mídia é prioritária para a defesa da soberania”

Embaixador alerta para riscos decorrentes do atual “controle dos meios de comunicação pelas classes hegemônicas mundiais”
Leonardo Wexell Severo
“O controle dos meios de comunicação é essencial para o domínio da classe hegemônica mundial. Como esses meios são formuladores ideológicos, servem para a elaboração de conceitos, para levar sua posição e visão de mundo. Daí a razão da democratização da mídia ser uma questão prioritária”, afirmou o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães no debate “O Brasil frente aos grandes desafios mundiais”, realizado nesta terça-feira na Universidade Federal do ABC.
Ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos (2009-2010) e secretário geral do Itamaraty (2003-2009) no governo do presidente Lula, o embaixador defendeu a campanha do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) por um novo marco regulatório para o setor. Segundo ele, uma relevante contribuição à democracia e à própria soberania nacional, diante da intensa disputa política e ideológica numa “economia profundamente penetrada pelo capital internacional”.
Entre as iniciativas para garantir o surgimento e estabelecimento de novas mídias, apontou, está a “distribuição das verbas publicitárias do governo”, desconcentrando os recursos públicos e repartindo de forma justa e plural. “O critério de audiência, que vem sendo utilizado, privilegia o monopólio e o oligopólio”, sublinhou.
O embaixador também condenou o fato de que um mesmo grupo possa deter emissoras de rádio e televisão, jornais e revistas – a chamada propriedade cruzada. Conforme Samuel, esta concentração acaba concedendo um poder completamente desmedido para alguns poucos divulgarem as suas opiniões como verdade absoluta. “Quando estados como a Argentina, o Equador e a Venezuela aprovam leis para democratizar a comunicação, a mídia responde com uma campanha extraordinária, como se isso fosse censura à imprensa”, lembrou.
MANIPULAÇÃO
Em função dos interesses da classe dominante, alertou o embaixador, a mídia hegemônica pode, sem qualquer conexão com a realidade, “demonstrar que um regime político da maioria é uma ditadura e realizar campanhas sistemáticas que permitam uma intervenção externa, com o argumento que determinado governo oprime os direitos humanos”. “Podem inclusive se aproveitar de manifestações pacíficas para infiltrar agentes provocadores que estimulem o confronto”, alertou.
Uma vez criado o caldo de cultura, soma-se à campanha de difamação e manipulação das consciências a intervenção militar, como aconteceu contra o governo de Muamar Kadafi. “Na Líbia houve a derrubada de um governo que lhes era contrário, não foi ação defensiva dos direitos humanos em hipótese nenhuma”, frisou. Na avaliação de Samuel, “os Estados Unidos têm um projeto muito claro de manter o seu controle militar e informativo”, que utilizam de forma alternada e complementar. “Contra os governos que contrariam frontalmente os seus interesses, os EUA têm um uma política declarada de ‘mudança de regime’. Para isso, sem grandes embaraços, qualquer movimento pode ser instrumentalizado”, assinalou.
Entre os muitos exemplos de manipulação citados pelo embaixador está o “esforço da política neoliberal para reduzir direitos”, utilizando-se da campanha pelo "aumento da competitividade”. ”O receituário que defendem é o de reduzir programas sociais, controle orçamentário e reduzir os benefícios da legislação trabalhista. Para isso disseminam ideias como a de que as empresas nacionais não são produtivas”, destacou Samuel.
Também condenando a manipulação da informação e o papel desempenhado por setores da mídia, o professor Paulo Fagundes Vizentini, coordenador do Núcleo de Estratégia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, considerou inadmissível que “os mesmos que bombardeiam e ocupam militarmente países soberanos venham agora dar lições de direitos humanos”.
“Antes era feio não ter opinião, hoje é ideológico, que mais se parece com fisiológico”, disse Vizentini, defendendo a afirmação do interesse público e da soberania nacional, e combatendo “os que querem que o país fique na segunda divisão, desde que sejam o capitão do time”.
O professor sublinhou o papel estratégico e singular proporcionado pela descoberta do pré-sal, tanto do ponto de vista energético, como geopolítico, e alertou para a necessidade de que o Brasil tenha os elementos de dissuasão para impedir que esse imenso patrimônio venha a ser apropriado militarmente pelos estrangeiros. “Para isso temos de enfrentar os espíritos fracos e colonizados. O colonialismo é o mais difícil de combater, porque está dentro da nossa cabeça”, frisou.
Para o secretário de Relações Internacionais do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, Pedro Bocca, “o fortalecimento dos espaços de mídia dos movimentos sociais, como a TeleSur, a Alba TV e a TVT, com sua divulgação em canal aberto, são uma necessidade do momento para o avanço da própria integração”. “Nesse momento, o investimento do governo é essencial para combater a desinformação e garantir a efetiva democratização da comunicação e do país”, concluiu.
Acompanhe ao vivo e veja fotos e resumos dos debates pelo

 

 

terça-feira, 9 de julho de 2013

TLC amplia fome, miséria e dependência da Guatemala com os Estados Unidos




Foto de Joka Madruga retrata o calvário dos trabalhadores guatemaltecos
Ao completar sete anos de vigência, Tratado de Livre Comércio devasta social e economicamente o país centro-americano

Neoliberalismo militarizado guatemalteco produz miséria em abundância
O Tratado de Livre Comércio (TLC) firmado entre os Estados Unidos e a Guatemala completou sete anos de vigência no dia 1º de julho, estampando as chagas da desnutrição, da miséria e da dependência da nação maia. Ao se ver estimulado a exportar produtos primários com baixo ou nenhum valor agregado – como açúcar, artigos de vestuário, café, pedras e metais, banana e bebidas – o país também acumula sucessivos e crescentes déficits em sua balança comercial com o decadente Império.
O rombo nos ingressos vem sendo tapado com a remessa de cerca de US$ 4,5 bilhões – cerca de 10% do PIB - feita pelos mais de um milhão e seiscentos mil guatemaltecos que sobrevivem em empregos precários nas plantações da Califórnia, nos subúrbios de Nova Iorque e de grandes cidades estadunidenses.
Com a economia em crise, o governo Obama tem apertado o torniquete migratório e os guatemaltecos deportados nos seis primeiros meses do ano já beiram os 25 mil, superando em 23% o mesmo período de 2012. A Direção Geral de Migração da Guatemala (DGN) avalia que com o debate da “reforma migratória” pelo Congresso dos EUA, estes números serão alavancados nos próximos meses - particularmente entre os setores com maior grau de vulnerabilidade, como mulheres e crianças - e ultrapassarão os 40 mil deportados do ano passado.
Como pudemos ver nos sete dias que percorremos mais de dois mil quilômetros em encontros com trabalhadores das “maquiladoras”, das fazendas de banana e café das multinacionais norte-americanas - com o seu desprezo pelos mais elementares direitos e a arrogância de seus guardas armados de escopeta - a hostilidade ianque é retribuída pelo governo do presidente Otto Pérez Molina com extrema benevolência. Tudo em nome dos interesses ianques e da oligarquia vende-pátria.
No último ano, a somatória de todos os produtos exportados para os Estados Unidos saltou de US$ 2,781 bilhões para US$ 4,977 bilhões. Somente no primeiro quadrimestre de 2013, alcançou US$ 1,327 bilhão, 41,7% do total exportado pelo país.
Mas todos os festejos do governo servil, reverberando a alegria dos EUA, de suas transnacionais e meios de comunicação, não conseguem ofuscar a realidade: a de que a balança comercial com o país do Norte segue altamente deficitária. Prova disso é que as importações do “parceiro privilegiado” tiveram um crescimento ainda maior em termos absolutos, pulando de US$ 4,114 bilhões para US$ 6,458 bilhões. O aumento de 57% tem significado um incremento da dependência, o que faz com que qualquer mínima sacudidela nos EUA provoque graves crises na economia satélite.
A coordenadora de Acesso de Mercados da Comissão de Vestuário e Têxteis (Vestex) da Guatemala, Karin de León, apontou que o mercado estadunidense representa 80% das exportações do setor, mantendo-se no patamar dos US$ 1,1 bilhão no último período. Para tornar esta “inserção” possível, abundam no país as “maquiladoras”, empresas que concentram grande contingente de mão de obra em galpões onde os operários sequer podem conversar – quem dirá se associar – recebendo em troca do seu ritmo frenético, que multiplica lesões e mutilações, os menores salários do país.
Mesmo diante de números tão devastadores e esclarecedores, o ministro da Economia guatemalteco Sérgio de la Torre tece loas ao TLC por dar “segurança empresarial de longo prazo” ao capital estadunidense. E o Ministério da Defesa determina a compra de mais armas. Para combater o inimigo interno.

DESNUTRIÇÃO CRÔNICA E AGUDA

Trabalhadoras da bananeira estadunidense Del Monte
Grande produtora de alimentos, a Guatemala ocupa atualmente o sexto lugar mundial em desnutrição crônica e aguda – o único país das Américas no grupo liderado por cinco países africanos – enfermidade que alcança mais de 60% da população, com as comunidades indígenas sendo as principais afetadas.
A anemia materna faz com que o país registre graves doenças congênitas, como hidrocefalia e anencefalia, em percentuais alarmantes que ultrapassam o dobro da média mundial.
Contribuindo para esse calvário, o aumento dos preços dos alimentos e da energia nos últimos anos têm deteriorado o mercado de trabalho guatemalteco, alerta a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal). Com o custo de vida nas alturas, 7,5 milhões de pessoas vivem na pobreza, das quais 2,2 milhões na pobreza extrema, catástrofe que afeta toda a área rural.
Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) apontam que a alarmante desnutrição que atinge as crianças guatemaltecas gera enorme impacto - atual e futuro – para o progresso do país. A Unicef destaca que esta é uma forma cruel de condenar uma nação ao subdesenvolvimento permanente, pois seus filhos padecerão ao longo da vida em “condições frágeis e delicadas de saúde”, com o nível intelectual limitado ou atrofiado pela deficiente ingestão de nutrientes nos três primeiros anos de vida.

FASCISMO ARMADO POR EUA E ISRAEL

Conforme dados do próprio Banco de Guatemala (Banguat), foi o setor agrícola – marcado pelos sangrentos enfrentamentos, desocupações e desalojamentos forçados em prol do latifúndio e das transnacionais – o que mais “avanços econômicos” obteve.
Na base da repressão e da militarização – com o apoio dos EUA e de Israel – foram “duplicadas as exportações” para a terra do Tio Sam, uma vez que as relações bilaterais ficaram ainda mais carnais desde a vigência do Tratado de Livre Comércio.
“No sul guatemalteco, as grandes extensões de terra necessárias à produção de açúcar para exportação requerem água abundante, que está sendo garantida com o desvio de rios e crescente contaminação, comprometendo a sobrevivência de muitas comunidades”, denuncia o líder indígena Kim Sanik, secretário do Conselho dos Povos do Ocidente, articulação que congrega o povo maia.
A derrubada indiscriminada dos bosques – 90% dos cortes são feitos sem qualquer controle pelas autoridades – informa a Coordenação Nacional para a Redução dos Desastres (Conred), também tem afetado gravemente o ecossistema, com o comprometimento dos taludes e da absorção da água se refletindo no aumento dos desastres naturais ocorridos com frequência no interior do país.
Kim também alerta para a “criminosa devastação” proporcionada pela lei de mineração, “que presenteia as transnacionais com minas de ouro e prata, além de jazidas petrolíferas”. Em favor de indústrias mineradoras e extrativistas estrangeiras, denuncia, milhares de indígenas vão sendo obrigados a deixar as terras mais férteis, “jogados entre a pobreza e a extrema pobreza”, com o país perdendo por completo qualquer perspectiva de soberania alimentar.
Frente à crescente revolta diante da denúncia que as mineradoras estrangeiras vinham pagando somente 1% de impostos, lembra Otto Rottmann, diretor da televisão comunitária Vea Canal, um dos principais meios de comunicação da oposição, ”o atual presidente Pérez Molina teve de prometer durante a campanha eleitoral elevar a cobrança para 40%, mas não cumpriu”.
“Houve uma transação completamente obscura na transição do mando de governo em que as mineradoras de ouro e prata anunciaram que aumentariam unilateralmente em 4% o pagamento de impostos, mas de forma voluntária e sempre que o preço destes metais preciosos não sofresse oscilações. E assim ficou”, frisou Rottmann.
Enquanto abunda em demagogia, o presidente fantoche Pérez Molina não estampa qualquer resquício de democracia. Comandante militar da época da ditadura do general Ríos Montt, o ex-presidente condenado por genocídio pela Corte Suprema da Guatemala e sentenciado a mais de 80 anos de prisão pelo desaparecimento, tortura e assassinato de milhares de pessoas – o “mano dura” tem criminalizado os protestos, qualificando as manifestações populares de resistência aos seus desmandos como “atos delinquentes e terroristas”.
Assim, enfatizou Rottmann, “o que está em curso é uma política de enfrentamento social aberto e armado com a população, com a decretação de estados de sítio e de exceção para garantir os interesses das empresas estrangeiras em nosso país”.

PERSEGUIÇÃO, TORTURA E ASSASSINATOS

Carlos Mancilla, secretário geral da CUSG
Nesta toada, o governo pró-Washington comemora que em 2012 ingressaram via exportações da indústria agropecuária US$ 1,552 bilhão em divisas, mais do que o dobro dos US$ 658,1 milhões registrados no primeiro ano do TLC. No período, os ganhos dos trabalhadores foram ainda mais arrochados, com o irrisório salário mínimo de dois mil quetzales (cerca de trezentos dólares) servindo apenas como referência, pois as empresas não pagam sequer um terço deste valor. O método para garantir o arrocho foi multiplicar a violência o assassinato de sindicalistas, e a transformação da Guatemala no país “mais perigoso do mundo” para os que defendem os salários e os direitos, lembra Carlos Mancilla, secretário geral da Confederação da Unidade Sindical da Guatemala (CUSG).
Presente à 102ª Conferência da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Mancilla lembrou que 57 lideranças sindicais foram assassinadas desde a vigência do TLC com os EUA, e que “se multiplicam as perseguições, sequestros, ameaças de mortes, demissões massivas e fechamento de sindicatos para inviabilizar qualquer negociação coletiva”.
Em 2013 já foram mortos os dirigentes sindicais Joel González Pérez, Juan Martínez Matute, Carlos Antonio Hernández, Santa Alvarado, Mayro Rodolfo Juárez Galdámez e Kira Zulueta Enríquez. Secretária geral do Sindicato dos Servidores Municipais de Nueva Concepción, Kira foi baleada na cabeça na biblioteca onde trabalhava.
“À medida que os movimentos se fortalecem, também aumenta a violência contra os que combatem pela justiça”, frisou Mancilla, destacando o papel da solidariedade internacional “para virarmos a página de impunidade e terror”.